Luto em tempos de crise


Já pararam para pensar no luto generalizado em que estamos imersos?


E você poderia me responder: Sim! Realmente, várias pessoas morreram no mundo todo, outras milhares perderam os seus empregos, muitos que trabalhavam por conta própria estão enfrentando sérios desafios para sobreviver; muitos negócios estão à beira de colapsar e talvez não se sustentem após a crise. A crise não é mais somente sanitária e trará consequências profundas para todos nós.


E essa resposta ressoaria em mim também! Há um luto enorme aqui pelas vidas das vítimas letais do vírus, pelas pessoas que perderam seus empregos e pelas pessoas que estão passando por dificuldades. Há luto por tudo isso, também.


Digo também porque, além desses, eu tenho pensado muito nos milhares de outros lutos que estão vivos por aí, muitos sem, sequer, serem reconhecidos. E acredito que muitos não encontrem espaço ou permissão para serem sentidos, por não ser “socialmente aceitos":


“Ah... passar o seu aniversário no isolamento, não é nada em tempos atuais! Aproveita que tem Whatsapp, Facebook e toda a tecnologia a seu favor e vai curtir as mensagens que estão te enviando! E sorte a sua de não ter que ir pro trabalho hoje!”


“Teve que adiar a festa de casamento? Ah sim... mas é tranquilo! O pessoal está devolvendo o dinheiro, não tem cobrança de multa, nada. Só remarcar e fazer depois!”


“Não te entendo... reclamava que tinha que sair de casa para trabalhar, agora reclama porque está trabalhando de casa! Eu hein... reclama de tudo!


“Gente, veja bem... essa guerra contra o Corona é uma das mais confortáveis que já teve na história da humanidade. É só ficar em casa. Na segunda guerra mundial, as pessoas tinham que ir para os campos lutar!”


Você já escutou ou disse algo parecido nestes últimos dias?


E como você se sentiu? Consegue imaginar quais poderiam ser as necessidades presentes ali, naquele momento? O que era, de fato, importante para você (ou para a outra pessoa) e que queria estar experimentando?


É possível que você tenha se sentido triste, chateado ou sozinho, ansiando por companhia, movimento, afeto, toque, evolução. E talvez você estivesse precisando sentir o LUTO por não estar vivendo isso agora. Sim, ainda que possa parecer estranho, luto é uma necessidade preciosa e, por vezes, é extremamente necessário enlutar para seguir, sentir a tristeza pela perda - de alguém, de algo, de alguma oportunidade.


E, ali, naquele momento, ao escutar alguma dessas frases, talvez você tenha se sentido irritado ou frustrado, por estar precisando de compreensão, empatia, acolhimento por tudo que estava vivo em você. Talvez você tenha reconhecido estes sentimentos e estas necessidades vivas aí para acolher a forma como você estava se sentindo por valorizar tudo isso e não estar usufruindo disso nos últimos dias.


Ou talvez você tenha entrado num espaço que chamamos de “chacal pra dentro”, que é surfar na onda da autocrítica: “Ah, é verdade! Como estou sendo egoísta e autocentrada agora. Não posso reclamar, de jeito nenhum! Estou em casa, bem, com saúde, tenho meu emprego e vai ficar tudo bem! É isso! Vai passar”.


Tenho entrado em alguns espaços assim nos últimos dias, de não me permitir sentir essa tristeza e me contar uma história de que “isso é pouco e que eu não deveria me sentir assim”.

E a boa notícia, que me veio depois, em um momento de autoconexão, é que: TODO LUTO É LUTO. E PODE SER RECONHECIDO E SENTIDO.

Me recordei disso após conectar com algumas tristezas vivas aqui: estar vivendo longe da família e dos amigos (vivo em Coimbra/Portugal); sem acesso à Biblioteca (que era minha segunda casa nesta jornada de Doutorado); sem acesso a material de pesquisa físico (livros e revistas da Faculdade de Direito, que é exatamente o motivo que me inspirou viver essa experiência) e sem sair de casa há 42 dias. Estou buscando acolhimento do que "é" e do que "não será”. Sim, às vezes, me sinto triste, ansiando por presença, carinho, toque, acolhimento, liberdade, evolução. E, desse lugar, posso abrir espaço para reconhecer e sentir o luto, seja esse luto porque quer que seja, tenha ele a dimensão que tenha. Essa amplitude pode ser necessária para que ele seja visto e acolhido.


Lembrar que tem pessoas sofrendo em vários lugares do mundo me apoia a reconhecer a nossa humanidade (há várias pessoas que, assim como eu, como você, que estão ansiando por saúde, vitalidade, proteção, segurança). Reconheço isso. E reconheço também que temos experiencias diversas e não há dor melhor ou pior... há dor.


Quantos projetos foram adiados? Quantas oportunidades não voltarão mais? Quantos abraços, carinhos, toques não ficaram para depois? E enlutar isso, ou o que quer que seja, nos é permitido!


O convite é se permitir ouvir as vozes desse luto. Que mensagem ele me traz? O que é importante para mim que, neste momento, não estou tendo?

Carinho? Afeto? Toque? Movimento? Presença física? Contato? Espaço? Segurança? Natureza? Aventura? Diversão? Variedade? Direção? Previsibilidade?

E tem caminhos (estratégias) possíveis para se ter isso, de outra forma? Não?!


Da minha experiência, alguns caminhos podem nos apoiar:


1) Fazer um exercício de autoconexão:

Ter um momento para parar e escrever o que está acontecendo com você, como você está se sentindo, quais são as necessidades que você valoriza e não está tendo neste momento. Esse exercício pode lhe apoiar a fazer pedidos, para si ou para outra pessoa.


2) Ter uma escuta empática:

Compartilhar com alguém pode ampliar o seu olhar para as necessidades e a escuta pode proporcionar acolhimento, compreensão e empatia para este luto. Isso também pode contribuir: LUTO COMPARTILHADO É LUTO PELA METADE.


3) Se permitir sentir o luto conectado à vida:

Quando não há caminhos visíveis para atender algumas necessidades, ou pelo menos não da forma como você gostaria, é importante enlutar, experimentando os sentimentos que vierem e se abrindo para uma conexão com o que é importante, que você já experimentou em outras oportunidades e não é possível ter neste momento.


O caminho para transformar esse luto começa por estar consciente da sua própria tendência à resistir sentir a tristeza ou a se culpar ao experimentar esta perda. Um próximo passo, reconhecendo a resistência, baixando as barreiras para sentir, e deixando de se culpar por estar sofrendo, é se permitir experimentar seus próprios sentimentos, abrindo-se a uma conexão com as suas necessidades. Até que você experimente o luto conectado à vida. E, lembre-se: é um caminho!


Vamos juntos! Te faço companhia neste caminho!


Autora: Cristiane Chaves

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