Pausa.

Essa crise chegou, e trouxe sem consentimento uma interrupção.


Pessoas adoecendo, morrendo, hospitais lotando, negócios fechando, muita gente precisando de ajuda, saudade de nossos queridos e alguns sonhos interrompidos.


“A crise é uma oportunidade. É nela que vem todas as mudanças!”

“Pratique atividade física, e aproveite o tempo para se reinventar na cozinha e aprender uma receita nova.”

“Esse é o momento de sermos criativos, desenhar novos objetivos, aprender novos conteúdos. Quantos livros você já leu?”

“Tudo vai passar. Não desanime, tenha esperança!”


São tantas mensagens, conteúdos, atividades, construídas e oferecidas para nos apoiar, não é? Ao mesmo tempo que celebro, detesto.

Celebro o convite para o auto-cuidado, para a esperança, alegria, positividade, criatividade...

Ao mesmo tempo, fica uma saudade. Existem aqui outras partes!


Ao sair de São Paulo, quase como uma fugitiva, antes de ir para a rodoviária esquentei o estrogonofe que estava na geladeira, coloquei em uma sacola com o iogurte e as frutas que tinha em casa e corri lá para baixo, para dar aos meus vizinhos moradores de rua.

Como estão eles agora? Como está o pessoal na cracolândia? Conseguiram o auxílio do governo? Não houve nenhuma morte? Porque não ficamos sabendo?


“Cultive a gratidão, muitas coisas boas vão te acontecer depois disso.”


Uma semana de confinamento, liguei para minha vó. “Ô minha filha, eu queria ser jovem.” “Por quê vó?” “Só velho morre desse vírus.”


“Não é preciso estar perto para estar junto.”


Mais uma semana se passa, chegando na cozinha para tomar café da manhã, meu irmão liga para minha mãe. “Ela já não estava se sentindo bem, mãe. Mas como mora sozinha, preferiu vir trabalhar ainda assim. Os colegas a levaram para o hospital, não deu tempo. Foi parada cardiorrespiratória.”


“Não se deixe paralisar pelo medo.”


Começamos a internalizar...


“Não posso nem reclamar, não perdi meu emprego, minha vida vai continuar normal, Tem tanta gente pior que eu. Eu tenho que estar bem! O máximo que perdi foi uma viagem pro Rio com minha namorada, mas isso é supérfluo. Vou me matricular nesse curso aqui, e seguir ainda mais produtiva no home office!”


Mas pera aí!!!


É só uma viagem para o Rio com a sua namorada, é supérfluo... Mas é também a expressão do seu afeto, um momento de descanso, de celebrar os resultados de seus esforços, de contemplar o que você percebe como belo. Tem valores importantes aqui!


Não podemos nos paralisar pelo medo, mas pera aí. O medo te convida a se proteger, te lembra que você ama seus idosos e quer a segurança deles. Te lembra que não somos imortais, e que construir sentido de acontecimentos trágicos não é um luxo, mas uma necessidade.


Não é preciso estar perto para estar junto, mas pera aí. Você sente muita saudade do cheiro do cangote da sua avó, e de como entendia que ela também estava com saudade quando te segurava no abraço no momento que você soltava. Você está presente, mas toque é muito importante para você.


E pode haver espaço para a gratidão por tudo que você tem, mas também para a preocupação. Você se vê nos seus vizinhos, e valoriza tanto lar, saúde, cuidado, bem-estar e igualdade de oportunidades, que não experimenta isso tudo em plenitude enquanto tantas pessoas estão privadas dessas necessidades.


Não entendo quase nada de astrologia. Mas não tem uma história de que estamos saindo da era de peixes, da individualidade, e entrando na de aquário, da coletividade?


Não será esse o momento para soltarmos essa ditadura da felicidade?

Queremos abrir espaço sim, para o aprendizado, movimento, criatividade, gratidão e esperança. Mas não precisamos excluir, e nem nos distrair, de nossa preocupação, tristeza, confusão, medo e saudade.


Há vida se expressando também neles. Há neles um convite para honrar a sua história, a sua jornada. Convite para contemplar os seus valores, para seguir pertinho de sua humanidade. Convite para mergulhar em tudo que há de bom, mas mergulhar de verdade, sem deixar partes de você a mercê... Levar toda a sua autenticidade.


Não podemos esquecer que enlutar, é também uma necessidade.


Autora: Jade Arantes

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