Ser empático é mais sobre seguir do que sobre guiar

É um exercício ter que escrever sobre as sutilezas da empatia quando existem tantas versões diferentes para a mesma palavra. Por isso trago aqui um relato pessoal, vivido nos últimos três anos onde explorar a prática da empatia, me ensinou a estar mais presente, a ser mais humana e por fim, a entender que nem tudo nessa vida gira em torno das minhas histórias.


O melhor presente que posso oferecer ao outro é a minha presença. É tão simples e óbvio, que me escapa a complexidade que há nesse ato. Principalmente porque é comum estar fora de mim, visitando o mundo das narrativas, das histórias que me conto.Por exemplo, acontece frequentemente quando dirijo, entrar em um assunto na minha cabeça e nem perceber o que aconteceu pelo caminho. Enquanto estou nesse ‘piloto automático’, ouvindo as narradoras que passam os dias a desdobrar histórias passadas ou futuras, perco a preciosidade do momento presente. Você já passou por isso?


Para ouvir a história do outro, oferecendo a minha presença, preciso desapegar das minhas histórias, por mais emocionantes que elas sejam.

Então, voltando ao ponto sobre a complexidade, para oferecer minha presença ao outro, primeiro preciso estar presente em mim e logo depois, tenho que saber “esvaziar de mim”, dos meus saberes, histórias, valores e julgamentos. Na maioria das vezes ouvimos já pensando na resposta ou ouvimos para resolver. Foi assim que aprendi na escola, em casa, na rua: tenho que ser eficiente, ter opinião e solucionar o problema que se apresenta. São meus conselhos, comentários cheios de certeza e humor, que me fazem ser ouvida. E isso funciona bem e me satisfaz, mas não é empático. Não é questão de estar certo ou errado, muito menos de deixar de ter minhas opiniões. A intenção é ouvir com entrega e curiosidade para perceber como é o mundo do outro.


Por isso, o “esvaziar de mim” pode ser desafiador, pois enquanto busco o reconhecimento de ser útil, enquanto preciso contribuir para trazer uma solução ou a cura para aquela dor, ocupo todo espaço de empatia que poderia estar oferecendo a quem está na minha frente. Não preciso me anular ou concordar com o que está sendo dito, mas sim silenciar por alguns momentos minha narradora, pois se estou ‘transbordando de histórias’ não tenho espaço para receber nada. Preciso dar conta de como está meu pote e entender com que qualidade sou capaz de ouvir. Na Comunicação Não-Violenta chamamos isso de espaço interno.


Entre a mensagem dada e mensagem recebida tem uma fração de segundo que posso usar para processar, conter o instinto de responder imediatamente e respirar, questionar minha intenção nessa conversa, entender que necessidades estão vivas em mim e no outro.

É nessa fração de segundos que mora a magia que pode transformar ruídos em música! Para estar nesse lugar de presença e empatia preciso constantemente me lembrar que não é sobre o que eu acredito, vejo, sinto...


“Quando uma pessoa não está conseguindo ouvir a outra é porque ela está precisando falar.” Repito essas sábias palavras sempre que tenho dificuldade de ouvir em uma conversa difícil.


Mas em qualquer relação, é importante lembrar: esta é a experiência do outro e por mais que simpatize com suas vivências, porque elas me movem, me afetam, nunca saberei exatamente como está sendo esse processo a menos que ele me conte. Mesmo quando tento me imaginar no "lugar do outro" ainda sou eu fazendo esse exercício de imaginação, ainda existem os meus conteúdos, as minhas crenças. A forma mais segura de saber o que realmente se passa no outro é me deixar aberto para receber o que ele me conta enquanto a sua experiência.


“Do outro lado existe o lado do outro.”


Mas e quando me identifico tanto com a história da outra pessoa que começo a misturar com a minha? No grego antigo “Patia” vem de “Páthos”, que pode ser traduzido como emoção. Simpatia tem o prefixo “sim”, quer dizer “aquilo que vem junto”, então sinfonia seria o “som que vem junto” logo, simpatia é a “estar na mesma emoção” ou “emoção que vem junto”.


Na empatia eu não preciso estar neste lugar de “estar na mesma emoção”, mas posso acompanhar o outro no seu processo, reconhecendo os sentimentos e necessidades que estão vivos. É extremamente libertador saber que não preciso apresentar soluções.

Na empatia quero apenas seguir meu companheiro, acompanhá-lo em suas narrativas. É na prática do dia a dia que aprendo a dançar entre a empatia, a honestidade e auto-conexão. A empatia é uma potencialidade humana. Escutar com empatia pode ser desafiador, por estarmos tão acostumados a escutar para responder. Mas a empatia pode ser exercitada, como um músculo. É uma habilidade transformadora, que gera a conexão de alta qualidade que necessito para viver.


“A empatia é uma via de mão dupla: vou ouvi-lo e, quando você se sentir ouvido, quero compartilhar com você como isso me afeta. Essa é uma relação empática.”

Marie Myashiro


Autora: Erika Moulin

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