Será que CNV são só 4 passos?

Atualizado: 26 de Set de 2018


Já dizia Jung “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”. Ouso dizer que o Marshall (autor do livro “Comunicação não-violenta”) tentou reproduzir esse encontro entre almas na forma de texto.

Se você já conhece a CNV ou se está conhecendo agora, há grandes chances do seu primeiro contato ter sido os famosos 4 passos: OBSERVAÇÃO, SENTIMENTOS, NECESSIDADES e PEDIDOS. O “passo a passo” que Marshall nos deixou para algo que é bem desafiador: uma forma não-violenta de nos relacionarmos.


Talvez você tenha encontrado um desafio que muitos também encontraram (inclusive a pessoa que escreve essas palavras nesse momento): o desafio de colocar isso em PRÁTICA! Nossa... quantas cenas desastrosas não aconteceram nesse caminhar... A gente se prepara, às vezes ensaia o que vai falar, mas chega na hora e PAH! Falamos algo de maneira agressiva, ou a outra pessoa responde de forma que não esperávamos, ou somos engatilhados emocionalmente e esquecemos tudo que tínhamos pensado falar... Já viveu algo parecido?


Na minha opinião, isso está muito ligado à associação que fazemos de que CNV são os tais 4 passos, é uma formula, é um método, é O caminho, só que ela não bem isso...

A Comunicação Não-Violenta é, antes de tudo, a proposta de um novo olhar sobre a maneira que nos relacionamos com o outro, com o mundo e principalmente com nós mesmos. Na comunidade de CNV, falamos que aprendemos uma forma de meditação mascarada de ferramenta de comunicação.

Se você anda se sentindo frustrado com as suas habilidades em conversar de forma não-violenta, faço a você o convite de estudar mais a fundo outros aspectos da CNV que antecedem qualquer passo a passo.


Aqui listo os principais tópicos que você pode buscar se aprofundar mais. Estes, dentre outros conceitos, são os principais guias dos cursos e processos de formação do ICNVB – Instituto CNV Brasil:


PARADIGMA DA DOMINAÇÃO


Também traduzido como “paradigma da dominância”, é uma das grandes raízes, se não A raiz, da forma violenta de nos relacionarmos. Estamos imersos em uma sociedade que ainda é regida por este paradigma, por esse modelo de como deve ser o nosso mundo.


Dentro deste paradigma, temos como fator central a dicotomia. A visão de que existe um certo e um errado, de que existem pessoas boas e pessoas más, de que inclusive existe só um caminho certo e, por consequência, aqueles que não o seguem são maus e merecem ser punidos! Pesado né? Agora imagina entrar em uma conversa sem levar tudo isso em consideração?

Grande parte da nossa busca em mudar a forma como nos relacionamos perpassa por mudar a forma como olhamos para o mundo.

Se você chega em uma conversa com a forte intenção de não entrar no paradigma da dominância, com consciência do “modelo” que pode estar por traz das falas da outra pessoa e das suas, tem grandes chances de você ir encontrando palavras para se expressar, sem precisar de passo a passo e desde de um lugar de extrema conexão e empatia.

Vale se aprofundar! E, se quiser, aqui no site temos um texto, escrito pelo próprio Marshall Rosenberg, que fala da ligação desse paradigma com a raiva (neste link).


CULPA e PUNIÇÃO


Um dos “pilares” do paradigma da dominação é o conceito de que pessoas erradas devem se sentir culpadas e devem ser punidas. Acredito ser de onde saiu o jargão “olho por olho e o mundo ficará cego”...

Quando entramos nesse sistema de culpa e punição estamos na crença de que, para as pessoas mudarem, para elas aprenderem, é preciso que elas sintam, de preferência, dor.

Nessa hora, podem passar pela sua mente vários casos em que “só assim para funcionar”. Realmente vemos muitas mudanças acontecendo pela dor, mas como a CNV nos apresenta, essas mudanças acabam sendo superficiais, acabam acontecendo negociações de estratégias e um contínuo descuidado com as reais necessidades e sentimentos.


Sem contar que, muitas das dores que já sofremos em relacionamentos partiram da outra pessoa acreditar que nós estávamos errados, que somos maus e que temos que sentir culpa e sermos punidos. Pare e pense um pouco, será que isso já lhe aconteceu? Comigo já... E a CNV é um lindíssimo campo para olharmos a fundo esse padrão, principalmente quando este padrão é aplicado no nosso relacionamento com nós mesmos. Conhecer mais sobre seus hábitos de culpa e punição pode ser uma incrível caminhada em prol de uma comunicação não-violenta!


A VIOLÊNCIA INVISÍVEL


O propósito do ICNVB é eliminar a violência invisível que existe nas nossas relações e na sociedade. Então imagina como esse tema nos toca... Às vezes, quando escutamos o termo “comunicação não-violenta” nos vem certa resistência, “Mas eu não sou violenta, sempre fui muito educada, não xingo, não agrido”. Temos um julgamento que a violência são ofensas declaradas, gritos e agressões físicas. Na CNV, descobrimos que nossa violência pode ser algo tão sutil que fica quase invisível aos olhos/ouvidos, mas que sentimos profundamente.

Tudo aquilo que coloca o outro (ou nós mesmos) na culpa e na vergonha é um ato de violência invisível.

Em muitas conversas usamos todo os 4 passos, mas deslizamos na intenção, acabamos trazendo elementos que sim, estão provocando no outro a sensação de culpa ou vergonha. Isso automaticamente nos coloca em modo de defesa, a dor da culpa e da vergonha, ao invés de fazer a conversa fluir, a trava em meio a um conflito de troca de acusações.

Você já conversou através da violência invisível com alguém? Já viveu o outro lado, recebendo do outro ou de si mesmo falas assim? Lembre-se de quais foram os sentimentos presentes.


Portanto, se você perceber que sua comunicação não está indo da maneira que gostaria, faça uma profunda investigação: “O que estou falando que pode gerar culpa ou vergonha?”, seguido de outra pergunta: “Eu quero seguir o paradigma da dominação e provocar esses sentimentos?”.

Sempre existe uma escolha, mas estamos tão imersos em uma sociedade que aprendeu a se relacionar assim que, às vezes, esquecemos disso. Não é fácil essa mudança, não é fácil nenhuma das mudanças que a CNV promove, não são só 4 passos. Mas, mais do que nunca, precisamos ir mais a fundo, precisamos ousar rever nosso “modelo de mundo” e criar novos hábitos, novos olhares.

Espero que este texto tenha lhe inspirado de alguma forma, espero que aceite o nosso convite de conhecer mais a essência da comunicação não-violenta e soltar a ideia de que é um passo a passo. Só assim vamos realmente transformar nossas relações com os outros, com nós mesmos e com o mundo.


Autora: Nolah Lima


(se tem interesse em saber mais, entre em contato conosco e conheça nossos cursos, formações, círculos empáticos e webinários. Vale acompanhar nossa agenda! Existem vários caminhos para você aprender e viver a CNV!)

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