O limão que salvou uma vida

Já era final do dia, me preparava para ir embora quando ela chegou. De ombros baixos, com postura humilde e olhar triste. Chegou como que pedindo desculpas por estar ali e assim começou: “Desculpe... O senhor tá podendo falar?”.

Disse a ela que sim e nos sentamos perto da janela.


“Padre, vim aqui porque quero morrer. Já tentei suicídio algumas vezes, mas desta vez vou fazer e não terá volta. Resolvi dar uma última chance a mim mesma e te procurar para conversar.”

Respirei e me escutei um pouco. Naquele momento percebi que meu coração estava preenchido de amor. Puro amor. Não havia julgamentos, havia uma vontade genuína de oferecer empatia. Via em seus olhos lágrimas já se formando, imagino que seu coração se apertava ao falar aquelas palavras.


“Estou aqui com você. Gostaria de me contar mais sobre o que está te motivando a esta escolha?”


Minha intenção não era convencê-la a não se suicidar, queria compreender o porquê da estratégia “suicídio”. Qual necessidade estava ali, no fundo. Acredito que chegou nela esta intenção, pois num suspiro ela se abriu: “Quero paz padre... Quero parar com todo sofrimento que estou causando aos meus pais e meu marido.” Disse com lágrimas escorrendo e afundando um pouco mais na cadeira.


Me perguntei, o que será que está deixando-a acreditar que causa neles sofrimento? Ainda segurando espaço para acolher o que viesse, verifiquei com ela se tudo bem eu lhe fazer uma pergunta e ela disse que sim.


“Para você, qual o sinal de que eles estão sofrendo?”


Ela parou um momento e então falou: “É porque eles choram. Quando me veem triste, quando não estou bem, eles ficam chorando e não aguento mais causar todo este sofrimento a eles.”


Percebi ali que ela estava se contando que aquelas lágrimas que eles derramavam eram por sofrimento. Na tentativa de eliminar o sofrimento dos pais, dela mesma e do esposo, o suicídio era o caminho escolhido. Perguntei a ela: “Posso te contar uma história?”. Enxugando suas lágrimas ela fez que sim com a cabeça.


“Coloque sua mão na sua frente como se estivesse segurando algo, imagine que nela agora está um limão cortado. Sinta o peso do limão na sua mão. Aproxima agora do seu nariz e sinta o cheiro deste limão. Agora morde o limão, sinta o sabor dele.”

“Onde está o limão? Tinha um limão aí?” Ela disse não. “Mas você sentiu algo na sua boca?”


“Senti! Minha boca ficou salivando e até senti um gostinho azedo.” A postura dela já estava mudando. Olhos brilhando, imagino que curiosa de onde ia dar esta história do limão. Então eu disse:


“Pois é, o efeito da história é real, mas talvez a história não seja como é na realidade.”


Ela parou, deu uma respiração profunda como quem estava segurando o ar há muito tempo e disse: “É, talvez eles não estejam chorando por sofrimento.”


Falei: “Exato. Pode ser preocupação, por exemplo, não sofrimento. Pode ser que você não esteja estimulando sofrimento no seu esposo, nos seus pais, talvez eles estejam preocupados porque gostam de você.” Ela abriu um sorriso. O primeiro sorriso que dava desde que chegou. Continuamos a conversar mais alguns minutos. Este dia ela saiu disposta a continuar um pouco mais a vida.


A partir da escuta e da empatia, este foi o dia em que a história do limão salvou uma vida.



Inspirado no relato de empatia do nosso querido amigo Wander Torres.

Escrito por Nolah Lima. Se você está passando por um momento delicado de ordem mental e deseja conversar, é só ligar 188 de qualquer aparelho fixo ou celular. A ligação é gratuita e a conversa fica sob total sigilo. Também é possível ser atendimento via chat no site www.cvv.org.br