Parar de julgar: é possível?

São tantas as as orientações que recebemos para parar de julgar, não é mesmo? Para se tornar uma pessoa melhor e bondosa, para experimentar maior conexão com as pessoas em sua vida, para evoluir no caminho do autoconhecimento, para uma boa prática espiritual, para viver melhor, esse convite se repete com persistência: pare de julgar. Mas… a pergunta de um milhão de dólares… Como? Nessa leitura, vamos dar um passo atrás: Parar de julgar… é possível? Nós acreditamos que não e isso não é algo ruim, pelo contrário. Segue comigo para entender por quê.


É possível parar de julgar?


Parar de julgar não somente não é possível, como pode ser danoso para a nossa proteção. O nosso cérebro está, a todo instante, analisando, avaliando e categorizando cada estímulo captado pelos nossos sentidos, e é essa habilidade, que nos permite identificar situações de perigo em poucos segundos, que tem garantido a sobrevivência da espécie humana desde os nossos primórdios.


Pode gerar estranhamento, mas é também a nossa capacidade de julgar que nos permite estabelecer relações com a realidade que nos cerca. Imagine que você, em uma manhã de sábado, abre a porta de casa às 08 da manhã para levar o seu cachorro para passear, sente o calor das primeiras horas de sol em sua pele, vê o céu azul no horizonte e escuta o canto de um casal de passarinhos em uma árvore próxima. Espontaneamente, o julgamento “que dia bonito”, ou algo parecido surge em seus pensamentos, e é nesse momento que você estabelece uma relação com o dia que está começando, e constrói sentido da sua experiência.


É verdade que, pela maneira que fomos socializados, esse funcionamento da mente humana pode começar a se manifestar com uma série de julgamentos moralizantes que não só dificultam a construção de relações enriquecedoras, como podem ter um impacto real em nossa sensação de bem-estar e saúde mental, especialmente quando nos tornamos especialistas e não conseguimos parar de julgar negativamente a nós mesmos.


“Eu nunca vou ser bom o suficiente.”

“Eu sempre faço tudo errado.”

“Os outros só pensam neles mesmos, eu não posso confiar em ninguém.”

“Ela vai achar que eu sou uma ingênua e vai querer passar a perna em mim.”

Em contato com a dor que pensamentos assim despertam, não há nada mais natural, então, que querer parar de julgar, não é mesmo?


Na prática da Comunicação Não-Violenta, podemos encontrar uma alternativa mais generosa e realizável que a tentativa de parar de julgar: a prática de traduzir os nossos julgamentos naquilo que queremos cuidar.

Do que queremos cuidar quando queremos parar de julgar?


Como então nos libertamos dos esforços (muitas vezes ineficazes) de parar de julgar, e começamos a traduzir os nossos julgamentos, de forma a criar mais conexão com os outros e nutrir o nosso bem-estar?


A Comunicação Não-Violenta nos aponta um caminho com esse insight:

A causa dos nossos sentimentos não é o que os outros fazem, mas sim, as nossas próprias necessidades.

Hãn?


Vou te contar um pouco mais a partir de um exemplo:


Na semana anterior de uma viagem em que eu passaria 70 dias no Canadá para viver uma imersão “Train the Trainer” em CNV, a Nolah, sócia aqui do Instituto, saiu de férias (que com muita antecedência já estavam marcadas).


Imersa em pequenos detalhes, desde garantir que estava tudo certo com o visto até a preocupação se o meu tênis de corrida iria caber na mala, e com uma especialmente grande lista de atividades a cumprir no Instituto, eu recebia, aqui e ali, mensagens dela no whatsapp:


“Sabe dizer se a proposta X já foi enviada?”

“Precisamos enviar o email de encerramento para todos os participantes da jornada, isso está no seu radar?”

“Como está o follow up com o cliente X?”


Não sei se você consegue imaginar, mas pensamentos como “ela não confia em mim, não é possível, só pode achar que não estou fazendo o meu trabalho direito. Por que está precisando conferir estando de férias?” e outros na mesma linha surgiam nessas interações.


Se eu tentasse simplesmente parar de julgar, e frear pensamentos assim, provavelmente o que iria acontecer era, a cada mensagem, a intensidade do cansaço e da impaciência só iria aumentar. O resultado disso nós já conhecemos: distanciamento ou uma explosão.


Mas se, de acordo com a CNV, a causa dos meus sentimentos não é o comportamento dela, mas as minhas necessidades, eu posso então investigar do que esses julgamentos estão tentando cuidar.


Julgamentos são expressões trágicas de necessidades.


Quando penso que ela não confia em mim, e que não deveria estar me trazendo essas perguntas enquanto está de férias, especialmente nessa semana tão atribulada que ela sabe que estou vivendo, o que esses pensamentos estão me pedindo para cuidar?


Nessa exploração, pude encontrar que eu precisava de compreensão e apoio. Eram essas necessidades que todos esses julgamentos estavam tentando trazer à minha atenção, necessidades essas que continuariam invisíveis para mim se estivesse tentando simplesmente parar de julgar.


Quando colhemos as necessidades que os julgamentos estão tentando trazer, novas possibilidades se abrem. Quando percebi que o que precisava naquela relação era compreensão e apoio, as listas de todas as formas que a Nolah estava errando perderam força na minha cabeça, e pude até notar um maior espaço para curiosidade dentro de mim. Do que será que ela estava tentando cuidar, quando, mesmo de férias, estava me trazendo essas mensagens?


Tentar parar de julgar pode ser desperdiçar uma chance de se conectar consigo e com o outro


Quando não paramos para traduzir os nossos julgamentos, muitas vezes as histórias que nos contamos sobre todas as formas pelas quais o outro ou nós mesmos estamos errando ganham força, e se torna extremamente difícil abrir conversas para efetivamente encontrar uma saída. Quando elas são iniciadas, muitas vezes acabam tomando a forma de acusações e defensivas, aumentando o distanciamento e reforçando ainda mais os julgamentos que carregamos uns dos outros. É um ciclo vicioso.


Em contraste, quando cesso as tentativas de parar de julgar para encontrar nos meus pensamentos quais são as necessidades humanas que quero preservar, como no caso com a Nolah: apoio e compreensão, posso me responsabilizar por elas e começar um diálogo não-violento, caracterizado pela busca de um entendimento mútuo, e co-criação de soluções.


Seguindo no exemplo, traduzir os meus julgamentos e me responsabilizar pelas minhas necessidades (no lugar de achar que é obrigação da outra pessoa adivinhar quais elas são e saber imediatamente como atendê-las), me ajudou a abrir uma conversa com a Nolah:


“Nolah, preciso te contar um pouco dos desafios que estou encontrando por aqui. Estou me percebendo sobrecarregada com as preparações para a viagem e todas as demandas do Instituto, e notando uma busca por compreensão e apoio. Me vejo um tanto agitada quando recebo as suas perguntas sobre as atividades, e fico querendo ouvir um pouco sobre o que está se passando por aí, e quem sabe encontrar um outro caminho que cuide da fluidez que estou buscando por aqui. Você pode me contar um pouco o que está se passando?”


Começar essa conversa foi a oportunidade que eu me dei de escutar que a Nolah sabia que era uma semana particularmente ansiosa para mim, e que ela estava mandando as perguntas exatamente com a intenção de me apoiar e cuidar dos compromissos que fizemos com o Instituto. Expressar as minhas necessidades, com curiosidade e abertura para também compreender as necessidades dela, nos permitiu reorganizar a maneira que estávamos acompanhando as atividades de uma maneira que funcionasse para as duas, além de fortalecer na relação a energia de colaboração que precisamos ter para seguirmos fazendo um bom trabalho juntas.


É o que encontramos na estratégia de, ao invés de parar de julgar, traduzir os julgamentos naquilo que nos importa: clareza do que realmente precisamos, aceitação dos nossos desafios, maior abertura para escutar e se conectar com o outro, além de maior probabilidade de criar soluções e nutrir a colaboração nas relações.

Quanto mais praticamos a tradução dos nossos julgamentos, mais fácil se torna sair da história que nossos pensamentos nos contam e ir para o cuidado com que importa de verdade. Para apoiar no desenvolvimento dessa competência, conheça o curso de aprofundamento em CNV “A Coragem de Julgar” clicando aqui.


Se ainda não deu seu primeiro passo na jornada de aprendizagem da CNV, conheça o nosso curso introdutório clicando aqui.


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Autora: Jade Arantes

Instituto CNV Brasil

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