O Correio Chacal

Marshall Rosenberg costumava fazer uma piada, uma brincadeira, que ele chamava de “correio chacal”. O chacal dentro da CNV é um animal usado enquanto metáfora para representar uma forma de linguagem mais reativa, defensiva, em que a conexão com outra pessoa e consigo mesmo é mais difícil de se estabelecer.


Ele usava essa metáfora para explicar porque as vezes, eu posso dizer algo da melhor forma possível, do jeito que eu imaginei ser o mais cuidadoso possível, e mesmo assim a pessoa que está ali comigo recebe de uma forma péssima: fica reativa, chateada, etc. Marshall brincava nesses momentos que a caixa postal do correio chacal é realmente terrível, ele dizia:

“Viu, eu falei o que estava no meu coração, expressei a minha verdade e essa pessoa escutou um insulto! Ah, mais uma vez o correio chacal entregou a mensagem errada. Risos”.

Quando iniciamos nossa prática na CNV frequentemente temos a expectativa que essa nova estrutura e forma de linguagem nos ajudem a ter interações maravilhosas com as pessoas na nossa vida. É quase um eureca, a resposta que eu estava procurando “Finalmente essa pessoa vai me entender agora!”. Mas não necessariamente, a realidade muitas vezes não é essa, as vezes a pessoa continua não entendendo e ainda fala indignada “Porque você está falando estranho desse jeito?”. Isso é para matar qualquer iniciante na CNV que estava tão empolgado para testar o que aprendeu.


Eu mesma passei por momentos a me questionar “Será que não estou falando direito? Caramba, eu nunca vou aprender a falar esse negócio certo!?”. Mas essa brincadeira do correio chacal que o Marshall fala me ajudou a perceber que nem tudo na comunicação e no diálogo está na minha conta, sob a minha responsabilidade. Eu sou profundamente responsável pela forma que eu falo, pelo que eu faço e como eu escuto, mas não consigo controlar nem ser responsável sobre como a outra pessoa escuta.


Nosso condicionamento e aprendizagem social foi em um contexto muito chacal, ou seja, aprendemos desde cedo a classificar as coisas como certas e erradas, a usar julgamentos e insultos como incentivos, achar que é um fator motivador maravilhoso eu chamar alguém de burro para que essa pessoa estude mais, ou acreditar que eu sou incompetente para me impulsionar para um caminho de evolução e aprendizado. Entretanto, o fato é que essa linguagem frequentemente entra no caminho da conexão e na obtenção daquilo que realmente queremos. Acreditamos que essa linguagem dura, estática e reativa vai nos motivar ou cuidar do que é mais importante, mas na realidade apresenta-se mais como obstáculo do que uma ponte.


Portanto, reconhecer que muitas vezes algo que eu falo pode ser recebido de uma forma reativa é libertador. Nos liberta de tentar controlar como e o quê a outra pessoa escuta.

Quando alguém ouve algo diferente do que o que eu tentei expressar, não necessariamente significa que a pessoa “entendeu errado”, mas que talvez a cabeça dela já esteja tão cheia de julgamentos que ela não consegue escutar nada que não seja um julgamento também. E isso não tem nada a ver comigo ou com a forma que eu falo ou deixo de falar.

Então, nesses momentos, podemos rir da ineficiência do correio chacal, que entrega presentes lindos todos amassados e distorcidos, e agradecer a oportunidade de tentar entregar o presente de novo.


Pode ser maravilhoso saber que a pessoa não entendeu o que eu quis dizer, ou melhor, ela não recebeu a minha expressão de verdade, o meu presente. Ela não me escutou como eu gostaria de ser escutada. Saber que isso aconteceu me permite tentar de novo, me dá mais uma chance de ser escutada como eu realmente quero. Marshall falava nesses momentos “Obrigado por me dizer o que você escutou, o que eu realmente quero te dizer é: ...”; ou então oferecia empatia dentro da CNV, devolver para pessoa o que eu estou escutando dela, se ela disser por exemplo: “É, você está querendo me dizer que você não se importa comigo mesmo, né, é isso que você está falando”. Eu posso refletir o que ela me disse “Você quer realmente confiar que eu me importo, é isso?” ou “Parece um pouco frustrante para você tentar me dizer algo que é tão claro do seu lado, não é? Você queria que eu enxergasse como você enxerga? Que a gente tivesse essa mesma clareza?”.


Essas são apenas algumas possibilidades, para que consigamos fluir em cada momento, insistindo na prática imperfeita da nossa expressão e nossa escuta. Trazendo talvez um pouco de humor do correio chacal para nos ajudar a ter mais leveza em momentos frustrantes, e celebrar cada nova oportunidade de praticar imperfeitamente de novo.

Autora: Luciana Dantas

Brasília - DF

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