O silêncio pode ser violento?

Nem só de palavras é feita a comunicação. O silêncio pode enviar muitas mensagens e, se usado como forma de punir a outra pessoa, pode sim ser um ato violento. Mas nem sempre o silêncio é uma tentativa de agressão, e pode ser uma tentativa de preservar necessidades importantes de quem se cala.

Você já teve a experiência de, em uma conversa ou discussão, a outra pessoa não estar aberta a conversar, ou até mesmo estar inacessível? Há diferentes formas e motivos pelos quais o silêncio pode aparecer em nossas relações.


Nesse texto, vamos explorar o que nos dá essa impressão de não disponibilidade do outro, as possíveis motivações por trás do silêncio e como responder ao silêncio. O silêncio pode ser valioso e até mesmo uma resposta sábia. Então siga na leitura para também entender como pedir por espaços de silêncio para cuidar da relação.


Os tipos de silêncio


O silêncio pode aparecer de diversas formas em nossas relações. Algumas vezes, o silêncio vem para cuidar de algo que é importante para nós ou para os outros. O silêncio pode também indicar a falta de recursos de alguém para lidar com um tema desafiador ou para expressar aquilo que quer.

Para nos ajudar a identificar quando o silêncio aparece na relação, listamos aqui alguns tipos de silêncio: 1. Ignorar a outra pessoa enquanto ela está falando e/ou evitar contato visual;

2. Se afastar durante uma discussão sem nenhuma explicação ou sem retornar para a conversa em seguida;

3. Desdenhar das preocupações do outro ou mudar de assunto;

4. Se recusar a responder;

5. Bloquear a pessoa nas redes sociais e telefone;

6. Estar sempre “ocupado” e com justificativas para não conversar;

7. Dizer que está tudo bem quando não está.

Ou seja, nem sempre o silêncio é a ausência de palavras. O silêncio pode ser sobre um tema em específico ou sobre uma ação que gerou dor. Para entendermos como lidar com o silêncio, em suas diferentes formas, é importante entender quais as motivações que podem estar por trás do silêncio.


O que motiva o silêncio?



Na Comunicação Não-Violenta temos a premissa de que por trás de toda ação, existe uma necessidade humana universal. E com o silêncio não é diferente. O silêncio pode ser uma estratégia para atender necessidades, ainda que seja uma estratégia trágica em algumas situações. Chamamos de estratégia trágica algo que fazemos como uma tentativa de atender a uma necessidade, mas que na verdade acaba diminuindo as chances de que o que mais queremos seja atendido.


Então, o silêncio pode ser uma ação que tenta atender necessidades. Vamos olhar para algumas possíveis motivações do silêncio:



1. Ficar em silêncio com a intenção de “punir” o outro por algo que ele fez ou disse;


Aqui está um exemplo de estratégia trágica para ter necessidades atendidas. Quando queremos punir o outro por uma ação que não nos chegou bem, provavelmente estamos buscando atender necessidades como empatia, consideração, reconhecimento do impacto das ações. Mas ao utilizar o silêncio como forma de punição, acabamos gerando distanciamento e desconexão. O silêncio pode engatilhar sentimentos de culpa e vergonha na outra pessoa, o que dá continuidade ao ciclo de violência.


2. Não estar conseguindo expressar o que sente;


A dificuldade de colocar em palavras a experiência, seja por ser muito doloroso ou por ser complicado, pode levar à escolha pelo silêncio. Por trás dessa escolha, podem estar necessidades de proteção, segurança, coerência e confiança.

3. Genuinamente ter a impressão de que a situação pode piorar se quebrar o silêncio;


Uma motivação comum para silêncio e não-ditos nas relações é o medo de, ao falar, acabar gerando um conflito com resultado negativo. Não falar nada acaba sendo uma tentativa de manter harmonia e paz na relação. O que acontece é que quando não verbalizamos nossa experiência e não contamos das nossas necessidades não atendidas, a tendência é que os incômodos se acumulem e acabem sendo ditos de maneira que machuca. Ou, os não-ditos passam a ocupar um espaço tão grande na relação, que a distância aumenta e a desconexão nos impede de cuidar do que mais importa ali.


4. O silêncio pode ser uma repetição de um padrão que aprendeu quando criança;


Se crescemos em um ambiente onde o tratamento de silêncio era a norma quando algo saia diferente do que o(s) adulto(s) gostaria(m), vamos ter a tendência de replicar essa estratégia em nossas relações, mais uma vez em uma tentativa trágica de ter necessidades atendidas


5. O silêncio pode ser um sinal de sobrecarga emocional ou psicológica;


O silêncio pode ser uma manifestação de ausência de espaço interno para abrir uma conversa, o que é comum quando estamos experimentando uma exaustão emocional ou psicológica. Como forma de economizar energia e até cultivar um pouco de paz e tranquilidade, nos calamos.

6. Para ter um senso de estar no controle novamente.

O silêncio pode ser uma tentativa de colocar limites em uma relação que está desgastada e onde há desesperança de chegar a uma solução conversando. O silêncio pode até mesmo ser uma medida protetiva em relações onde ocorreram comportamentos abusivos, e o contato zero é uma caminho que pode ser recomendado para encerrar o ciclo de abuso.


Optar pelo silêncio, pedindo por um tempo ou espaço em uma conversa difícil, é também uma forma de se reconectar, de ganhar mais compreensão sobre como aquela conversa está nos impactando e onde nos toca, para então voltar para a conversa desde um lugar de mais centramento e maior compreensão do que quer cuidar.



Quando lemos as motivações vemos que algumas são formas trágicas de cuidar das necessidades de segurança, autoestima, empatia, dentre outras. Outras dessas motivações mostram desafios que encontramos em nos expressar de forma vulnerável e assertiva, preferindo assim não falar nada.


Conhecer essas motivações é útil tanto para que possamos escolher outras formas de cuidar do que queremos preservar, quanto para saber como responder ao silêncio de outra pessoa.


Como responder ao silêncio?

Agora que compreendemos que o silêncio pode ser uma manifestação de necessidades não atendidas, vamos explorar algumas possibilidades de como responder ao silêncio de uma outra pessoa.


1. Reconhecer os sentimentos do outro e demonstrar empatia:


"Eu imagino que esteja se sentindo sobrecarregado depois do que aconteceu e estou aqui para escutar. Você tem espaço agora para conversarmos?"


Muitas vezes o silêncio é resultado da sobrecarga emocional e psicológica. Apoiar a outra pessoa a se sentir segura em expressar seus sentimentos, sem forçar este momento, pode contribuir para que ela se abra.


2. Se a pessoa seguir no silêncio, dê um tempo e deixe-a saber que vai retomar contato depois:

"Me conto que você escolheu ficarmos distantes neste momento. Entendo que está precisando de espaço. Vou te procurar novamente amanhã/semana que vem e espero que então possamos conversar e reconectar. Como te chega este prazo?"


Esta é uma forma de se manter conectado com suas necessidades e expressa um limite de até quando vai aguardar a pessoa para que possam conversar/ reconectar.


3. Se você tem a impressão de que o silêncio está sendo usado como forma de controle/punição e não está ok com isso:


"Me deixar sem contato por xx dias/semanas não está ok para mim. Para manter nossa relação, preciso que a gente encontre outras formas de conversar e lidar com os problemas. Se isso não for possível, quero dar uma distância na nossa relação e cuidar do que é importante para mim."


Se este comportamento está sendo repetitivo e você se vê sem alternativas, pode ser importante colocar este limite firme na relação.


Como pedir por um espaço de silêncio cuidando da conexão


Tudo que fazemos é para cuidar de algo importante para nós, mas quando não sabemos expressar e escutar o outro podemos acabar prejudicando exatamente o que queríamos cuidar.


Se o silêncio vem na intenção de cuidar é importante isso ser declarado e que seja feito um compromisso de se retomar a conversa:


"Neste momento estou percebendo que seguir na conversa não me faria bem/ eu não conseguiria me expressar e te escutar como gostaria. Estou precisando de espaço/ tempo para processar/ me entender melhor/ me acalmar. Podemos retomar a conversa amanhã/ semana que vem/ hoje a noite?"


Ainda pode haver frustração, mas a outra pessoa não ficará perdida e confusa sem saber o que fazer e como se conectar a você.


O silêncio é parte de como nos comunicamos, e podemos aprender não só a como lidar com ele, mas também a utilizá-lo de forma a cuidar de nós mesmos e das nossas relações. Para aprender novas habilidades de comunicação, como lidar com reatividade, empatizar com o outro e se expressar de forma mais precisa, te convidamos a conhecer nossos treinamentos: Comunicação Consciente - Treinamento Introdutório em CNV + Respiro - Mindfulness e reação consciente.


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Autora: Nolah Lima com colaboração de Flávia Amorim