O que é Síndrome do Impostor e dicas para sair dela

Você já deve ter lido esse nome e se perguntado: o que é Síndrome do Impostor? Se você já questionou a sua capacidade de realizar um trabalho, ainda que tenha feito capacitações ou até já tenha feito trabalhos similares antes, é provável que você já tenha experimentado os sintomas da Síndrome do Impostor.


Em um mundo onde a alta performance e a adaptação às mudanças são exigências cada vez mais comuns no mercado de trabalho, tem se tornado frequente ter dúvidas sobre a nossa capacidade de desempenhar de acordo com as expectativas. Esse auto-questionamento pode levar à diminuição da autoconfiança e impactar negativamente na produtividade.


A boa notícia é que você não está só nessa experiência. A Síndrome do Impostor é um fenômeno tão comum, que talvez não deveria nem ser chamado de síndrome. Neste texto, vamos explorar suas características e trazer alguns caminhos para sair da paralisia que vem com a Síndrome do Impostor, com o apoio da prática da Comunicação Não-Violenta.


O que é a Síndrome do Impostor


A Síndrome do Impostor é uma experiência psicológica em que uma pessoa duvida de suas habilidades, talentos, conquistas e sente um medo constante de ser descoberta como uma fraude.


O termo Síndrome do Impostor foi cunhado pela psicóloga Pauline Rose Clance. Enquanto psicóloga, ela percebeu que muitos dos seus pacientes graduandos, ainda que tendo boas notas, não acreditavam que mereciam suas vagas na universidade. Em entrevista com seus estudantes, ela teve relatos de que muitos deles acreditavam que a sua admissão na universidade tivesse sido um erro. Ainda que ela soubesse que esse sentimento não tinha fundamento, ela se lembrava de ter se sentido da mesma forma quando era uma estudante, e essas percepções a levaram a realizar pesquisas para entender mais sobre essa experiência de duvidar de sua própria capacidade.


Em seus estudos Pauline percebeu que as caraterísticas do "impostorismo" estavam presentes em diferentes gêneros, nacionalidades, cor de pele, idade e profissões. Porém, percebeu que a presença dos sintomas da Síndrome do Impostor é ainda mais prevalente e com um efeito desproporcional em pessoas que pertencem a grupos minorizados.


Os estudos sobre a Síndrome do Impostor mostram que não se trata de uma doença nem uma anormalidade, sendo um fenômeno tão comum que a própria Pauline sugere que não deveria ser chamado de síndrome. Esse fenômeno não tem relação com ansiedade, depressão, baixa autoestima, podendo acontecer com pessoas de diferentes perfis e situações de vida.


No estudo da Síndrome do Impostor, Pauline R Clance identificou uma ocorrência que ela chamou de pluralistic ignorance (ignorância pluralista, em tradução direta), em que, em algum grau, todas as pessoas duvidam de si no seu íntimo e acreditam que ninguém mais se sente assim.


Pessoas com carreiras consolidadas e conquistas reconhecidas pela sociedade, como Maya Angelou e Albert Einstein, relataram ter experimentado a Síndrome do Impostor.


Einstein chegou a se descrever como um “trapaceiro involuntário”, cujo trabalho não merecia tanta atenção quanto recebeu.

Estima-se que aproximadamente 70% da população irá experimentar sintomas da Síndrome do Impostor ao menos uma vez em sua vida. Vamos seguir olhando para quais são as características mais comuns da Síndrome.




Principais características da Síndrome do Impostor


A Síndrome do Impostor pode se manifestar de diferentes maneiras, mas existem algumas experiências comuns, como o pensamento ou crença de que não merecemos o que conquistamos, de que somos fraudes e de que cedo ou tarde irão descobrir que estamos enganando a todos. Ou ainda, de que nossas ideias e habilidades não valem a atenção de ninguém.


Esses e outros pensamentos que acontecem para quem experimenta a Síndrome do Impostor podem gerar sentimentos como insegurança, medo de ser descoberto e de sofrer uma punição, o que pode ocasionar uma baixa auto-confiança e dúvidas sobre suas habilidades.


É comum que a experiência da Síndrome do Impostor aconteça em ambientes novos e desconhecidos, como na mudança de universidade, de emprego ou até de cargo dentro de uma mesma empresa.


Algo que Pauline R. Clance observou, e que torna desafiador lidar com a Síndrome do Impostor, é que não importa o quanto de evidências uma pessoa tenha sobre sua capacidade e habilidades, os sentimentos de “impostorismo” não vão embora. A persistência dos pensamentos e sentimentos gerados pela síndrome pode levar à paralisia, procrastinação, queda de performance entre outras consequências que afetam a auto-percepção de quem passa pela Síndrome do Impostor.


Mas existem estratégias para lidar com a Síndrome do Impostor. Um caminho sugerido pela própria Pauline R. Clance é conversar sobre a experiência. Saber que um mentor ou colegas também se sentem dessa maneira alivia os sentimentos e a crença de ser impostor. Existem várias outras estratégias. Vamos olhar para como a Comunicação Não-Violenta pode nos ajudar a lidar com a Síndrome do Impostor.


Dicas para sair da Síndrome do Impostor com a Comunicação Não-Violenta


Aqui no Instituto CNV Brasil, algumas de nós experimentamos os sintomas da Síndrome do Impostor com certa frequência, e encontramos na Comunicação Não-Violenta uma estratégia para sair da paralisia e das dores que vêm com a experiência de duvidar da própria capacidade.


Quando estamos na Síndrome do Impostor, é como se uma parte de nós contasse histórias que nos fazem duvidar das nossas habilidades e talentos. É como se houvesse uma voz interior que dissesse que “não conseguimos” ou que “não somos bons o suficiente”, o que leva a sentimentos como insegurança, ansiedade, medo, angústia.


A Comunicação Não-Violenta nos lembra que sentimentos são mensageiros das nossas necessidades humanas universais. E que até mesmo esses julgamentos e auto-críticas podem ser maneiras trágicas das nossas necessidades se manifestarem. Com isso em mente, vamos olhar para alguns passos que nos ajudam a sair da Síndrome do Impostor, com o apoio da prática da CNV.


1. Aplicando o primeiro componente da Comunicação Não-Violenta: as observações


O primeiro passo para sair da Síndrome do Impostor, com o apoio da Comunicação Não-Violenta é separar as observações, os fatos observáveis, das histórias que me conto sobre a minha capacidade de realizar a tarefa ou desafio que se apresenta.


Pergunte-se: o que de fato aconteceu que me faz acreditar que não tenho capacidade para realizar essa tarefa?


Encontrar fatos observáveis apoiou uma cientista que se culpava por problemas que aconteciam no laboratório a sair da Síndrome do Impostor. Ela começou a documentar os problemas encontrados todas as vezes que algo dava errado. Até que percebeu que a maior parte dos problemas vinham de falhas nos equipamentos, e não por erros seus. Isso a apoiou a reconhecer sua própria competência e solucionar os problemas.


Vou contar um episódio onde a Síndrome do Impostor quase me impediu de aproveitar uma oportunidade de trabalho. Algum tempo atrás, trabalhei 6 meses voluntariamente em um projeto na Tailândia, onde aprendi a fazer produção e edição de vídeos. Ao voltar para o Brasil, surgiu para mim a possibilidade de ser contratada para fazer um projeto onde eu gravaria e editaria uma série de aulas para um curso online. Só que a voz da minha impostora dizia que eu não conseguiria fazer esse projeto, afinal eu não tinha nenhuma formação ou especialização em edição de vídeo. Mas, tinha uma outra voz que me dizia para aproveitar a oportunidade. Separar as observações das histórias que eu me contava me ajudaram a sair da Síndrome do Impostor.


O que eram fatos observáveis ali? Um observável era que eu havia produzido e editado mais de 50 vídeos. Outro ponto observável era que, a partir desses vídeos, o projeto para o qual eu trabalhei voluntariamente conseguiu gerar renda, a partir de uma plataforma de apadrinhamento. Encontrar essas observáveis me ajudou a diminuir o volume das vozes que me diziam que eu não conseguia porque eu não tinha uma formação na área.


Separar os fatos observáveis das histórias que nos contamos quando estamos na Síndrome do Impostor ajuda também a perceber que por trás dessas histórias que nos contamos, existe algo que queremos preservar. Esse é o segundo passo onde a Comunicação Não-Violenta apoia.


2. Identificando o que a voz da Síndrome do Impostor quer te contar com o segundo componente da CNV


Por mais que seja desafiador lidar com os pensamentos que vêm quando estamos na Síndrome do Impostor, pode existir uma mensagem valiosa por trás dessa voz. Na Comunicação Não-Violenta entendemos que os julgamentos, críticas e diagnósticos são expressões trágicas de necessidades humanas universais. Ou seja, os julgamentos que fazemos sobre nós mesmos contam de algo que é importante para nós, de algo que queremos preservar. O convite da CNV é traduzir esses auto-julgamentos e diagnósticos em necessidades humanas universais e, assim, encontrar caminhos para cuidar das nossas necessidades.


No meu exemplo, quando eu estava na Síndrome do Impostor, um julgamento frequente que eu tinha sobre mim era que “eu não era boa o suficiente por não ter uma formação em produção e edição de vídeos”. Quando me perguntei o que era mais importante ali para mim, percebi que era muito importante para mim cuidar da qualidade do que seria entregue e, para isso, queria evoluir em algumas habilidades específicas de edição de vídeos. Isso contribuiria também para eu ter mais segurança para assumir o projeto.


Quando conseguimos identificar as nossas necessidades, fica mais fácil dar um próximo passo para cuidar disso que nos importa e, assim, sair da Síndrome do Impostor.

Aqui está a lista de sentimentos e necessidades humanas universais, que vai te apoiar nessa investigação do que a voz do impostor quer preservar.


3. Dando um próximo pequeno passo para sair da Síndrome do Impostor


Quando estamos na Síndrome do Impostor tomar uma ação pode ser muito desafiador por estarmos com a nossa auto-confiança abalada. Mas quando conseguimos identificar o que é importante que queremos preservar, ou seja, quando identificamos as necessidades humanas universais que se manifestam ali, fica mais fácil pensar em uma ação para cuidar do que é importante naquela situação.


Voltando ao que aconteceu comigo, quando entendi que a voz da Síndrome do Impostor queria me contar que era importante para mim cuidar da qualidade da entrega e ter mais segurança para atuar no projeto, consegui definir o que fazer em seguida. Eu identifiquei as habilidades de edição que eu queria desenvolver e pedi apoio para um colega com experiência na área. Esse colega me passou dicas e orientações que me apoiaram a evoluir nessas habilidades e a ter mais segurança no projeto.


A Síndrome do Impostor é um fenômeno comum que afeta nossa auto-percepção e que pode impactar negativamente no nosso desempenho. Mas é possível lidar com ela de forma consciente. Então, da próxima vez que perceber pensamentos que te dizem que você não consegue, não é bom o suficiente ou que é uma farsa que pode a qualquer momento ser descoberta, lembre-se de fazer essas perguntas:

  1. Quais são os fatos observáveis sobre o meu desempenho e minhas habilidades?

  2. O que é importante para mim que a voz da Síndrome do Impostor está querendo me contar?

  3. Qual o próximo pequeno passo que posso dar para cuidar do que é importante para mim e, assim, começar a sair da Síndrome do Impostor?


A prática da autoconexão pode ser muito valiosa nesses momentos de insegurança e dúvida da própria capacidade. A autoconexão é uma das aplicações da Comunicação Não-Violenta. Se você quer entender como a CNV pode te apoiar não só nas suas relações mas também para aparecer para o mundo em sua autenticidade e capacidade plena, conheça o curso Comunicação Consciente, Introdutório em Comunicação Não-Violenta.


E para ir ainda mais fundo na prática da autoconexão, a CNV combinada à prática de Mindfulness se torna muito potente. Por isso, temos um valor especial no combo para os cursos Comunicação Consciente + Respiro - Mindfulness e Reação Consciente.


Foi útil para você as informações e dicas para sair da Síndrome do Impostor que encontrou aqui? Fica o convite para compartilhar com alguém querido que pode encontrar uma ajuda nesse conteúdo.



Autora: Flávia Amorim